Por que virei negacionista: a culpa é da crase

Não há crise do coronavírus. Fumar não faz mal pra saúde. O aquecimento global não é provocado pela humanidade.
Demorei a acreditar nessas verdades abafadas. O que mudou minha opinião foi a crase.

A difícil fusão da preposição “a” com o artigo “a” prega peças. Aconteceu, comigo, diante de um nome próprio. Mas poderia acontecer a qualquer um.

Eu me referia à Juca. Era essa a frase. Que não tem crase.

Acossado pelo peso do terrível erro, tive uma epifania.

Não há coronavírus. Fumar não faz mal. O aquecimento global não é causado pela humanidade. Não existe crase.

Pronto.

Uma nova visão de mundo se materializou diante de mim. Não se pode obrigar ninguém a tomar vacina. Tampouco se pode obrigar a usar a crase. Pensem nas infâncias destruídas pela imposição da crase nas escolas.

Na homossexualidade contida na inserção de um sinal fálico quando há contração de duas vogais idênticas.

Sinto-me preparado para finalmente apresentar o outro lado no debate: “A crase: necessidade ou doutrinação?”. Sorte que hoje há programas na TV aberta e por assinatura para pessoas como eu.

Percebi que o negacionismo, além de cômodo, não promove o debate de ideias. Não quer somar, sugerir, acrescentar. O negacionismo é a arte de promover a mim mesmo. Eu, empreendedor de mim. É a meritocracia que nega o mérito para indicar sua força.

Quero ser divulgado por todas as pessoas indignadas contra as minhas ideias, mas que retuitam cada vídeo meu dizendo “que absurdo”. E, claro, por pessoas ressentidas com a crase. Tretas criadas, os algoritmos fazem o trabalho deles.

A receita de autopromoção com o verniz de contestação é incendiária para inflamar as redes sociais. Penso até num cargo eletivo para 2022.

Os negacionistas da pandemia, do racismo, da desigualdade, do aquecimento global já tomaram os seus lugares e conseguiram propagandear a si mesmos. Mas o nicho da crase ainda está aberto. Baita oportunidade para me promover a base do uso polêmico da crase.

Isso explica por que virei negacionista. Aliás esse “por que” se escreve junto ou separado? A doutrinação do “porque” foi criada por professores marxistas para constranger alunos a buscar o verdadeiro “porque” das verdades ocultas.

Em suma: “por que” separado não existe.

E, claro, a corrupção no Brasil não existe mais.